MEMORÁVEL ENCONTRO

           Embora educada nos ritos da Igreja Católica, a menina não seguia à risca os preceitos religiosos. Ansiava por algo mais que nem ela mesma sabia o que poderia ser. Aos nove anos, um dia no confessionário o padre lhe fez uma pergunta inapropriada… Qual dos dois seria o verdadeiro pecador? Não contou aos pais, mas nunca mais foi ao confessionário. Nem com padre algum mais se confessou. Somente a hóstia recebia, e na primeira vez que o fez por conta própria, receou estar agindo errado, mas como nada aconteceu, assim continuou. Aliás, confessar… Não se afinava mesmo com esse tipo de coisa; absolver alguém não seria função da Divindade?  

            Foi até bom. A menina nunca lembrava mesmo a penitência aplicada. Quantos pai-nossos? Quantas ave-marias? Era um desacerto e uma perda de tempo. Num acordo inocente que o passar dos anos fez esquecer, barganhava com o Menino Jesus, este já grandinho, entre os pais, no altar de sua preferência. De tanto fixar a vista no Menino Santo, a menina tinha a impressão de que Ele se mexia, e ela gostava disso.

            A missa propriamente não assistia. Ficava do lado de fora e entrava quando já havia terminado. Usava então a inocente linguagem da infância para com o Menino Jesus, abrindo para Ele o seu coração.  

            Era linda a Igreja de São Salvador, no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro. Muitos anos mais tarde, quando não mais residia naquele bairro, quis rever a Igreja da sua infância. Ficou desapontada: todos os altares de madeira nobre, artisticamente trabalhados, haviam sido retirados juntos com as imagens, e no lugar eram pinturas murais de extremo mau gosto e de cores fortes. Nunca mais voltou lá. O que pode fazer um pároco de mau gosto…

            Dos padres da infância lembrava-se de três: dois alemães e um de Recife. Felisberto era idoso e tinha um defeito no pé; Aloísio, mais ou menos moço, gostava de jogar bola; e Luiz, bem jovem ainda, era só ternura para com as crianças.   

            Anos depois, já adolescente e trabalhando no escritório de uma fábrica no bairro da Piedade, com espanto ela viu entrar pelo escritório adentro um homem de terno e gravata, abraçado a uma mulher espalhafatosa no vestir e no falar. Bastante pintada, a mulher falava alto e dava boas gargalhadas. A adolescente reconheceu no homem o antigo sacerdote Aluísio, a quem ela evitava beijar as mãos, apesar da insistente exigência de sua mãezinha. O padre desligara-se dos votos sacerdotais, e a excêntrica mulher renunciara ao monastério… Combinação perfeita. Eram amigos de meus cinco patrões. As conversas entre eles eram apimentadas e regadas a cerveja.   

             Quanto ao padre Luiz, a menina se afeiçoara a ele por causa da  atenção que dava aos trabalhinhos de madeira que ela fazia. Mas um dia o sacerdote foi transferido. A capelinha para onde ele fora designado era no mesmo bairro, porém bem distante e no alto de uma ladeira cuja escadaria era imensa… Para quem conhece, era escadaria tipo Igreja da Penha. Mesmo assim a menina algumas vezes foi visitá-lo, até que tendo de estudar à noite, e trabalhar durante o dia para ajudar nas despesas de casa, deixou de vez seu mentor espiritual. Mas em sua lembrança ficara as mãos do sacerdote, que de tão bonitas, ela sempre dizia merecer serem esculpidas.  

Esta pequena história real poderia terminar aqui não fosse o memorável encontro

Passados mais de 25 anos, um dia a menina, já então mulher, em companhia de um admirador que ela erroneamente julgava ser de nobre caráter, estavam os dois a procura de uma mesa disponível num restaurante da movimentada Rua Sete de Setembro, Centro do Rio de Janeiro, calçada tão estreita que mal dava para os dois passarem, quando, no reboliço de gente pra lá e pra cá, resultou em que se separassem. Ele entrou no restaurante e ela, ainda na calçada, deu de frente com um homem de meia idade, de terno e gravata, que à sua frente olhava-a com extrema curiosidade e por fim perguntou:

— Você não é Zélia?

— Sim – respondeu ela.

— Não lembra de mim? – perguntou ele ansioso.

— Penso que sim… Mas não me lembro de onde – respondeu ela ao mesmo tempo  que procurava ver no homem alguma coisa que a fizesse lembrar de quem se tratava. Por alguns momentos os dois ficaram em silêncio olhando um para o outro. Até que de repente alguma coisa nele despertou a atenção dela.   

— Já sei! É o padre Luiz! Como me reconheceu?  

— Pelos olhos… – respondeu ele. E você?

— Pelas mãos… – disse ela.

***

Esta história mais uma vez deveria terminar aqui. Porém a outrora menina cometeu um erro muito grave: não deu à ocasião o valor que o momento merecia. Despediu-se sem mais nem menos do padre e entrou no restaurante ao encontro daquele que ela julgava ser o dono do seu coração. Depois, já em casa, analisando o que acontecera, veio o remorso e o desejo de corrigir o que fizera. Naquele tempo não havia Internet. Tentou como pôde obter qual paróquia o padre Luiz trabalhava. Por fim, através de correspondência trocada com autoridades da Igreja, soube que ele estivera de passagem pelo Rio de Janeiro, mas estava servindo em Patos, interior do Estado da Paraíba. Dado o endereço, ela escreveu pedindo desculpas, e sabe que ele recebeu a carta, mas ele não respondeu… 

____________________

Zélia Scorza Pires

Rio de Janeiro, 1968.

 

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