HISTÓRIAS QUE ENSINAM

Não é de hoje a nossa vontade em narrar dois contos iniciáticos que lemos há trinta anos, mas não recordamos mais o nome de seus autores e nem onde foram publicados. O que ficou em nossa memória foi a lição que os dois contos encerram e que gostaríamos de passá-la adiante. Por isso, com o pouco da recordação que ainda temos, resolvemos conta-los à nossa moda, pedindo desculpas, de antemão, aos que porventura conheçam os dois contos na íntegra, pois nosso objetivo é difundi-los e não o de nos apropriarmos do que não nos pertence. Então, já tendo nos penitenciado, passemos a distrair a alma do leitor.

Era uma vez um homem santo ao qual chamaremos Hassan, pelo significado do nome: “bom, bonito”, e desse modo era ele considerado pelos habitantes da sua aldeia, pois vivia mais no céu do que na terra. Um dia Hassan se desfez dos poucos pertences que possuía e passou a viver em meditação, orando sempre pela humanidade. Vivendo praticamente da caridade alheia, consumia um mínimo de alimento, já que alcançara um tal estado de beatitude, que vivia mais de prana, a energia vital que tudo anima. Hassan era muito querido pelo povo da aldeia, e sua fama de homem santo ultrapassara as fronteiras da vila. Todos o respeitavam. Um dia ele resolveu retirar-se da aldeia e ir ao encontro do coração da floresta, passando então a viver numa caverna que adotou como morada. Entregou-se a uma paz interior ainda maior, reforçada pela placidez do lugar. Devido o imanente desejo de se tornar um autêntico asceta, Hassan, em pouco tempo despertou o seu Deus interior, tornando-se um ser único com a DIVINDADE. Os anos se passaram e Hassan, atingindo um estado de consciência quase que fora da matéria, desligara-se de tudo que era mundano, até mesmo das coisas que ele ainda considerava agradáveis, como o contado com a Natureza. Nada o perturbava; nenhum vínculo mais o prendia a coisa alguma. Vivia em permanente contemplação, enquanto a Natureza desempenhava o seu permanente papel de doadora. Hassan envelhecia sem que notasse o que se passava à sua volta ou mesmo longe. Seu corpo vivia na terra, mas sua mente estava sempre no céu. Nada o abalava…

Um dia uma graciosa corça apareceu lá pelas bandas onde Hassan meditava… Parecendo meio perdida, ela vagarosamente foi se aproximando de Hassan, até sentir-se à vontade. Para Hassan era como se nada tivesse acontecido. A corça pareceu gostar da indiferença do santo, tanto que permaneceu ao lado dele até o amanhecer do dia seguinte, quando então tomou outra direção. Hassan continuou impávido: com corça ou sem corça era a mesma coisa para ele. Dois dias depois a corça voltou já agora mais animadinha, e ficou como se estivesse em sua casa. No dia seguinte de novo foi embora. O animalzinho continuou nesse vaivém esporádico até que passou a vir diariamente, como se algo a induzisse ficar ao lado dele. Esse convívio entre animal e homem, fez com que ambos se acostumassem, embora Hassan não percebesse a sutileza desse envolvimento… Um dia, não se sabe por que, a corça deu novo rumo à sua vida: desapareceu! Hassan, que antes era uma fortaleza-viva, estremeceu… Por que a impaciência por ele sentida? Aquele asceta, que parecia ter-se desligado de tudo que é terreno, de repente começou a sentir um leve aperto no coração… Esse mal passou a progredir à medida que o tempo escoava e a corça não aparecia. Hassan já não conseguia ausentar-se mentalmente do mundo humano, com a mesma facilidade que fazia antes. Habituara-se de tal maneira à vinda diária da corça, que a paz que ele antes desfrutava e conquistara com tanta renúncia, transformara-se, de um momento para o outro, em inquietação, ansiedade e desassossego. Como pode? Ele que não tinha mais vínculo com coisa alguma, de repente se vê assim escravo de um animal?

Pobre Hassan, por seus próprios esforços ele conseguira sair da Roda de Sansara, a Roda das Rencarnações, a Roda dos apegos… Mas de novo se viu atado a ela por causa da inclinação afetuosa a um simples animalzinho. Ah! Vida ilusória! Que tantos ardis lança aos homens, para que caiam na sua intrincada rede, assim como acontece aos peixinhos inexperientes, que facilmente deixam-se levar pelo tentador anzol… Desta lição admirável e dolorosa de Hassan, subentende-se que todo o apego, divino ou terreno, seja ele qual for, gera liames, produzindo retorno ao plano onde se desenrolou o fio do destino, o fio cármico… Daí se conclui que até mesmo o amor, o afeto que uniu Hassan à corça, também cria aliança… Só o Amor Universal liberta o homem, porque, como o próprio nome indica, é incondicional, não cria barreiras, não tem preferências… Mas, para se sentir o Amor Universal, é preciso consumir muitas existências… A evolução humana é lenta e gradual, justamente para que o que foi conquistado a duras penas perdure e não se perca… 

A outra história é a de um pelotiqueiro, indivíduo malabarista, com agilidade nas mãos, e a quem daremos o nome de Ventura…

Um dia Ventura deixou de exercer sua habilidade na rua, porque um frade, ao passar pelo local onde Ventura fazia as suas demonstrações, ficou tão maravilhado com a destreza do rapaz, que o convidou para cuidar dos utensílios da cozinha do mosteiro, pois sua habilidade iria diminuir a carga horária de trabalho dos frades que ajudavam na cozinha, podendo então  recolherem-se mais cedo para as orações.

A vida de Ventura não era lá essas coisas, por isso ele logo aceitou a proposta do frade, e lá se foi o nosso pelotiqueiro exercer outra função, agora num mosteiro que faria ter uma vida bem menos miserável do que a que estava acostumado.  

Eis que já vemos o nosso destro herói na cozinha do convento, causando espanto pela agilidade com que trabalhava. O sorriso era agora sua principal marca, e se estendia por todo o mosteiro. Mas o nosso amigo tinha também outros predicados: era humilde, prestativo, simples, e tinha muita pureza interior, até mesmo certa inocência. Com tantos predicados, Ventura passou a ganhar a admiração de muitos frades, mas também a inveja de outros… Há pessoas que não ficam satisfeitas com a felicidade alheia. Mesmo nos monastério e em inúmeros lugares sagrados isso acontece, porque nem todas as pessoas são virtuosas… Enquanto isso Ventura vivia sua vidinha simples, sem suspeitar ser alvo de discussões, pois enquanto uns o menosprezavam pela sua pouca instrução, outros achavam que ele deveria ser melhor aproveitado, ou seja, encaminhado à vida religiosa. Assim, com o passar dos anos, chegou finalmente o dia de Ventura tornar-se o Irmão Justino, nome que escolheram para ele porque justas eram sempre as suas atitudes.

Certa ocasião o Superior do convento convocou todos os frades para, cada um deles, em sua cela, oferecer à Virgem Maria uma penitência, tendo como finalidade da penitência contribuir para a Paz no Mundo. Cada um que fizesse a penitência que desejasse. Assim sendo, uns preferiram orar, outros rezar o terço, alguns recitaram salmos, outros cantaram louvores, teve os que fizeram poesias, outros músicas sacras, houve os que esculpiram imagens em louvor à Nossa Senhora, alguns pintaram santos, enfim, cada qual deu o seu tributo à Virgem Imaculada. 

E o irmão Justino o que fez? O que pretendia oferecer à Virgem Santíssima? Isso era alvo de curiosidade geral dos frades. Cansado de tanto pensar, Justino resolveu pôr-se diante da imagem da Santa, ficando a falar com ela ingenuamente por longas horas. Sentia-se tão incompetente, tão desajeitado… A Virgem, cujo semblante o artista que o esculpira soubera dar-lhe uma doçura extrema, parecia sorrir para Justino, mas ele nem notou, de tanto que se sentia imerecido. Após vários dias nessa luta interna, Justino pareceu ter-se decidido: encostou a porta de sua cela, e diariamente, horas a fio, ficava diante da Virgem, sabe-se lá fazendo o quê. A curiosidade entre os frades cresceu. Não comentavam entre si porque as regras do convento não permitiam, mas bem que estavam curiosos. Não é que Justino fosse um ser tão especial, mas é que infelizmente, mesmo nos meios religiosos a vaidade existe… As normas do mosteiro proibiam de qualquer frade invadir a privacidade de outro frade, a não ser em caso extremo. Quase todos já haviam cumprido as suas penitências, faltava apenas Justino, que continuava uma incógnita para todos. O cansaço era visível em seu rosto, qualquer um podia notar. Seu abatimento era impressionante. Um dos frades que olhava a carreira religiosa de Justino com certa depreciação, não fez por menos: queria porque queria saber o que estaria fazendo aquele frade paspalhão. Não titubeou: infringiu as normas do mosteiro, indo silenciosamente em direção à cela daquele frade tolo. Entreabrindo bem devagar a porta, deu com Justino fazendo a sua penitência ante a Maria Imaculada. E que sacrifício!… Entre surpreso e horrorizado, o intruso viu não o frade Justino, mas o antigo pelotiqueiro! Um oh! de indignação quase denunciou o infame curioso. Que heresia!  Iria agora mesmo denunciar ao seu Superior aquele prestidigitador que ofendia a dignidade de Nossa Senhora! Mas, por incrível que pareça, o frade intrometido não conseguiu desgrudar o pé do chão. Não por ter sido possuído por uma força estranha, mas porque ele próprio admirou-se da agilidade do pelotiqueiro, cujas mãos ele nem via, tal a velocidade com que Justino manuseava as peloticas. Eram muitas mãos ao mesmo tempo o que o frade curioso enxergava. Pareciam asas de borboletas se movimentando sem parar. Notadamente exaurido, e prestes a cair de tanto mostrar à Virgem Maria sua habilidade, o irmão Justino mal se sustinha de pé. E não deu outra: o coração do pobrezinho não conseguiu sobreviver a tanto esforço. Ao solo caiu inerte, depois de ter oferecido à Santa a mais sincera das penitências. Prestes a morrer, Justino ainda pôde ver Nossa Senhora descer do altar, e, amorosamente, dirigir-se a ele sorrindo lhe afagando o rosto. E tudo isto foi presenciado pelo invejoso que pretendia desmascara-lo! Emocionado e envergonhado, e cheio de remorso, o maldoso frade, cabisbaixo e triste, saiu de onde estava abatido com a dura lição que aprendera, enquanto que a alma de Justino subia aos céus no Colo de Maria, como um menino grande e puro que ele, julgando-se desajeitado e indigno, proporcionara a Nossa Senhora momentos de grande entretenimento.

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Zélia Scorza Pires

São Lourenço, MG, junho de 1996.

Publicado na revista Aquarius.

 

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