Poesias Eymar – Semeando Conhecimento https://semeandoconhecimento.com.br Adiel - São Lourenço Fri, 02 Oct 2015 17:28:13 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.4 Mensagem https://semeandoconhecimento.com.br/mensagem/ Fri, 02 Oct 2015 17:27:57 +0000 http://semeandoconhecimento.com.br/?p=4081 Nas tuas noites de paz, é impossível que me escutes
Um lamento incontido, perdido no ar
É um gemido de amor, um soluço
De saudade infinita a te procurar.

Se o vento gemer, não te espantes, meu bem
Que ele leva o lamento do meu coração
Buscando o aconchego de teu seio querido
Para poder suportar esta atroz solidão.

Se a chuva cair, não lamentes
Que meu pranto ela leva daqui
Pranto triste, abundante, gelado
Pois rolaram de olhos que choram por ti.

Se o trovão ribombar e a terra tremer
Não te assustes pensando fugir
Que ele é o meu grito de dor incontido
Suplicando ao Senhor, que te faças me ouvir.

Se o sol causticar, ressequindo a terra
Não maldigas o horror desse terrível efeito
Que ele é o calor, destrutor e mirrante
Da saudade cruel, que abrigo no peito.

Se o raio fender os céus procelosos
E sua luz ofuscar os teus olhos risonhos
Não te assustes temendo o seu malefício
Que ele é o clarão de teu vulto em meus sonhos.

Se o orvalho banhar teus cabelos
E o marfim de teu rosto afagar
Apieda-te dele, querida
Pois é o único beijo que eu posso te dar.

(Rio de Janeiro – 1965)

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O Enigma https://semeandoconhecimento.com.br/o-enigma/ Fri, 02 Oct 2015 17:24:07 +0000 http://semeandoconhecimento.com.br/?p=4079 Todos temos na vida um mistério
Do Anjo da Luz que desceu aos abismos
E perdendo a visão de um mundo real
Mergulhou-se nas trevas de luxúria e cinismo.

LUZ! Grita o anjo caído em pranto e agonia.
CARNE! Grita um corpo chagado em ânsia e volúpia
E sonhando na treva com um mundo de luz
Ambos se juntam carregando a cruz.

Ali está a luz, brilhando sempre no coração
Aqui está um corpo cego, eternamente em solidão.

Pára um instante! Olha o vazio que te cerca
O teu mundo, o meu mundo: DIFERENTES!
Somos dois e não somos um par
Porque somos apenas dois anjos doentes.

(Rio de Janeiro – 1964)

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Fim de Ciclo https://semeandoconhecimento.com.br/fim-de-ciclo/ Fri, 02 Oct 2015 17:21:19 +0000 http://semeandoconhecimento.com.br/?p=4077 Aproxima-se o instante fatal da derrocada
Sôfregos corcéis a custo são detidos
Átila, Gengis-Kan e Tamerlão
Contemplam uma vez mais a terra enraivecidos.

Um silêncio pesado envolve tudo
Fantasmas, pálidos, horrendos, pavorosos
Emergem do passado rancorosos
O Oráculo já não fala, ficou mudo.

Nas ruínas de Tróia fumegantes
Os carros de combate redivivem
Corcéis mordendo o freio, espumeiam
Guerreiros soturnos, olhos parados os dirigem.

Nas praias da Fenícia, as naus se aprestam
Não cantam os marujos, balbuciam
Orações, gemidos, surdo pranto
Uma dor profunda prenunciam.

Babilônia também surge do nada
Seus reis, seus templos, o próprio Touro Alado
Espectrais, serenos, majestosos
Todos de pé, o mesmo olhar parado.

No Egito, calcinado e milenário
O “simum” parece emudecido
Já não sorri a Esfinge, o seu sorriso
Está grave, atenta, o rosto endurecido.

Os faraós, os sumo-sacerdotes
Em suas vestes brilhantes majestosas
Estão de pé, voltados pro Ocidente
Olhar perdido em visões angustiosas.

Em Creta, o Minotauro está silente
Do Labirinto surgiram mil fantasmas
Belos mancebos, virgens lindas
Olhar esgazeado, faces pasmas.

Na vetusta Roma dos patrícios
Espectros horrendos enchem os circos
Mas não se ouvem mais os brados da chacina
Todos parecem escutar, os corpos hirtos.

O Capitólio, o Fórum, estão vazios
Tudo é silêncio imenso, é gravidade
Parece as pedras escutar atentas
Alguma voz falar na soledade.

Em Jerusalém, as “pedras choram”
O mudo pranto em sangue transformado
Num Cálice de ouro foi guardado
E lá no calvário, Alguém crucificado.

Mas, esse Alguém neste instante já não chora
Contempla o mundo também angustiado
E no seu peito o coração deplora
O sangue em vão por Ele derramado.

Na Grécia heróica, de um passado eterno
Sombras agitadas aparecem
Sócrates, Platão, o próprio Homero
Ali estão, de pé, se reconhecem.

Os soldados de Alexandre, ali estão
Imensas legiões de homens fortes
Saídos quem sabe, dos infernos
Olhar tristonho nos altivos portes.

Na Ásia imensa, multimilenária
Um rubro clarão empolga os povos
Um rugir de mar encapelado
Um povo a desejar domínios novos.

Multidão imensa enche os caminhos
Homens famintos, crianças andrajosas
Mulheres que se arrastam nos abismos
Pelo banquete da carne sequiosa.

Fim de um ciclo apodrecido e gasto
Ruína integral da humanidade
Mas ao longe no horizonte, mui distante
Surge uma luz de amor e caridade.

É essa luz que contemplam neste instante
Todos os povos do passado e de agora
É essa luz inatingível por milhões
Que ainda retarda a punição que se demora.

Mônadas ibero-americanas
A glória sem par conduz
Eis a luz do Ocidente
Esse Ocidente luz.

Brasil, Brasil, terra do fogo
Tua hora está chegando a cada passo
O último peregrino se aproxima
Fugindo ao desespero de um fracasso.

Depois, de norte a sul, leste a oeste
Se soltarão as pragas da desdita
E cairão sobre o mundo alvoroçado
A Guerra, o Domínio, a Fome, a Peste.

Foge peregrino, apressa o passo
O “Dias Irae” se aproxima.

(Brasília – 1960)

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Ouvindo Deus https://semeandoconhecimento.com.br/ouvindo-deus/ Fri, 02 Oct 2015 17:11:12 +0000 http://semeandoconhecimento.com.br/?p=4074 Não deves opor-te a correnteza
Quando tudo ignoras sobre mim
Que vivo oculto atrás da natureza
E que distingue o bom do que é ruim.

Quando ainda no lodo, te arrastavas
Informe, obscuro em prisca era
Só eu sabia o teu destino escrito
Naquele frágil corpo de monera.

Depois te fiz pessoa por muitas formas
Grotescas, delicadas, belas e horrendas
Fostes uma planta, um peixe, o mar, um réptil
Tendo por lar o chão, o mar, as fendas.

Nesse longínquo, nem sonhavas
Pensar, agir, interrogar.
Pois eu era em ti, apenas o instinto
Há no teu imo uma força a te guiar.

Um dia fiz-te um homem!
Dei-te inteligência, amor, razão.
E a partir desse ato generoso.
Mergulhei mais fundo no teu coração.

Mas tu, insensato, louco, astuto.
Começastes a julgar-te o rei da criação
E a proceder por ti, pobre coitado
Deixaste de ver e de sentir a minha mão.

Julgas saber quem és e onde vais
E assim te debates nessa treva
Que pensas ser luz em tua cegueira.

E querendo subir, mais baixo cais
Por não saberes o que tenho para ti
Traçado ao te esboçar a vez primeira.

Se queres sábio, viver em paz contigo
Deixa fluir a vida e me descobre
E eu te direi então onde te levo
Por trás do véu que teu futuro encobre.

E terás paz, sabendo que não podes
Traçar teu rumo sem que eu mesmo o faça.

(Santarém – 1958)

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Redenção https://semeandoconhecimento.com.br/redencao/ Fri, 02 Oct 2015 14:18:40 +0000 http://semeandoconhecimento.com.br/?p=4059 Ergue-te Gigante – Empunha o facho
É tempo de o Mundo iluminares
Chega de trevas, abaixo a rebeldia
Que te lançou em cadeias milenares.

Serpente antiga – Dragão misterioso
Expulso do trono que traíste
É tempo de voltares às estrelas
Recuperando o lugar de onde saíste.

Olha o firmamento, a Via Láctea
E verás ali o teu lugar primeiro
Escuro, sombrio como o silício
Saco de carvão, junto do Cruzeiro.

Naquela cruz celeste das estrelas
O teu bendito irmão crucificado
Verás, sangrento, sofredor cativo,
Para arrancar-te à senda do pecado.

Empunha o facho e vem,
O teu trono está limpo e redimido
A espera de Ti para reinares
Sobre um Mundo que por Ti foi corrompido.

É tua vez agora de apagar
O incêndio que no Mundo começaste.
É tua vez agora de colher
A semente que no Mundo semeaste.

Redimido estás, volta a brilhar
Luciferina chama os Céus Te esperam
Anjo da Luz! Retoma o facho!

(Santarém, 1955)

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